Uma república dominada
por sindicalistas pelegos somente não foi instalada em 1964 por duas razões:
falta de um líder carismático e a pronta reação das Forças Armadas.
Passados 50 anos
constatamos que uma república dominada por sindicalistas já foi instalada no
país por duas razões: a existência de um líder carismático (único gerado pelo regime militar) e a omissão dos
militares. A mesma república sindicalista, porém com uma corrupção muito mais
refinada, suportada por uma sólida aliança com o grande capital e garantida
por uma base eleitoral mantida pelos cofres públicos.
Onde foi que
erramos, a ponto de termos transformado em frustrações os sonhos de um jovem
tenente que chegava à tropa, juntamente com 356 companheiros, pensando em
ajudar a construir um Brasil melhor?
Uma visão
retrospectiva mostra que a intervenção que os militares fizeram em 64 foi para
garantir que os interesses superiores da nação não fossem sobrepostos pelos
interesses escusos de governantes que estavam na iminência de assumir graves
compromissos à revelia da nação, pretendendo interpretar despoticamente o
interesse nacional que, no contexto de uma democracia, deve corresponder
essencialmente ao interesse real da população, e não aos interesses de grupos
dominantes, que não atenda necessariamente às aspirações e interesses legítimos
dos diferentes estratos da sociedade.
E o interesse dos
grupos governantes apontava para a instalação de uma república sindicalista
que, como um câncer, espalharia metástases por todo o Estado e a sociedade,
para controlar aquele e subjugar esta. O rumo desta república sindicalista
seria dado pela resultante da conjugação de forças que transformariam o
Brasil em algo parecido com a república bolivariana em que Chávez transformou
a Venezuela.
Reconhecemos que o
interesse nacional não pode ser definido como construção intelectual de um
grupo, mas, também, que na conjuntura que vivíamos nos anos 60, o Brasil era
dividido (como ainda é hoje) em uma maioria desorganizada e uma minoria
organizada, onde se conjugam grupos de interesse, entre os quais as Forças
Armadas, o grupo que, reconhecidamente, não só é o que mais reflete o perfil
da nação como o que tem a consciência mais nítida do que corresponde aos
interesses permanentes da nação, aqueles que constituem o núcleo irredutível
do conceito de interesse nacional: a sobrevivência nacional, a integridade
territorial, a independência, a autodeterminação e a segurança nacionais,o
bem-estar da população, a defesa da identidade cultural, a preservação dos
valores nacionais, etc.
Óbvio que erramos, mas onde foi que
erramos, a ponto de transformar sonhos em frustrações?
Erramos porque não tivemos a coragem
de fazer a intervenção que a situação exigia e que a sociedade imaginava que
fizéssemos. É nossa a responsabilidade porque a sociedade nos deu a
oportunidade de corrigir o rumo e desperdiçamos quem sabe, a melhor oportunidade para que nos
transformássemos na grande nação com que sonhávamos.
Não vislumbramos a complexidade do
problema. Preocupamo-nos somente com o que víamos do iceberg, a Guerra Fria e
seus reflexos internos. E não nos preparamos para enfrentar a sua parte
submersa, imensamente maior. Não preparamos lideranças à altura dos desafios,
gente capaz de praticar uma política de nação, de penetrar no imaginário e
nas expectativas das pessoas para delas extrair a síntese das suas
aspirações. Contemporizamos com uma política cheia de vícios simplesmente
para manter uma caricatura de democracia. Deixamos hibernando uma corrupção
que agora ameaça a própria existência do Estado com escândalos e roubalheiras
por todos os lados.
Em
vez da necessária cirurgia, uma envergonhada intervenção que se traduziu na
entrega da Economia para o liberalismo econômico de economistas liderados por
Eugênio Gudin, a Política para os velhos caciques políticos, inclusos os mais
retrógrados e corruptos coronéis políticos do Norte e Nordeste, reservando
para os militares a tarefa de garantir, através do autoritarismo, que estas
áreas operassem sem qualquer contestação e a missão de enfrentar a subversão.
Não fomos capazes de visualizar a trajetória da sociedade brasileira para
preparar o seu futuro.
A criação daquela nação que todos sonhávamos
passava obrigatoriamente pela definição de um projeto nacional forjado pela
participação organizada de todos os brasileiros, o que somente seria
alcançado através de uma profunda reforma estrutural que permitisse, no longo
prazo, a criação de um potencial cívico capaz de gerar um projeto de nação
forjado por todos os brasileiros, ou seja, a consolidação de um pleno e
autossustentado estado democrático.
Para que não fossem mais necessárias
intervenções como a de 64 era necessário sermos duros para mudar o rumo de
variáveis importantes para o desenvolvimento social. Nosso erro foi usar mal
a força que nos autorizaram empregar que se resumiu a um autoritarismo
político que foi mais usado para manter um arremedo de democracia –que hoje
todos chamam de ditadura- e que faltou para as reformas estruturais que estão
atrasando o nosso desenvolvimento.
Autoritarismo político que serviu para
a construção de um bolo que acabou sendo servido somente às elites, mas que
não foi usado para ocupar de forma ordenada a Amazônia, para impor o projeto
Calha Norte como prioritário para a segurança nacional o que teria edificado
a nossa tranquilidade naquela imensa fronteira amazônica e para estabelecer
uma política para a população indígena norteada por Rondon e não por
antropólogos comandados por interesses estrangeiros. Omissões que provocam
sérias ameaças à integridade nacional.
Autoritarismo político que não foi
usado para criar uma política do cidadão que começasse com um planejamento
familiar baseado na paternidade responsável - essencial para a interrupção no
curto prazo do processo de geração de miséria- e que continuasse com a
criação de um sistema nacional de saúde pública e de educação, para
transformar, em uma geração, o brasileiro em um cidadão, capaz de forjar o
tão necessário projeto nacional.
Autoritarismo político que faltou para
enfrentar a oligarquia dominante e dar mais ousadia na implementação do
excelente Estatuto da Terra que certamente transformaria o Brasil no celeiro
do mundo e teria desarmado essa bomba chamada MST que mais prejuízos e
frustrações causou do que encaminhar uma moderna reforma agrária. Faltou ousadia
para decretar índices de produção para as terras agricultáveis, sobre os
quais seriam cobrados os tributos, o imposto da terra, fixo, de acordo com o
potencial estabelecido, o que premiaria os produtivos e inviabilizaria a
posse de terras improdutivas. As terras privadas seriam respeitadas sendo, ao
longo do tempo e sem conflitos, consolidadas as produtivas e sendo
dilapidadas, pelos impostos, as improdutivas. As terras públicas continuariam
públicas e arrendadas pelo pagamento do Imposto da Terra. O Estado ficaria
com o papel de indutor da produção primária. Teríamos feito uma inédita
revolução agrícola com uma revisão fundiária que, sem violência, corrigiria
injustiças do passado. Teríamos tirado, daqueles que só visam à agitação
social, a sua maior bandeira, Teríamos dado um exemplo para o mundo e nos
tornado o celeiro do planeta, mas fomos incapazes de dobrar os latifundiários
que dominavam a ARENA dos grotões, de onde vinham os votos para suplantar os
que os grandes centros despejavam no MDB.
Faltaram autoritarismo e grandeza
política para quebrar a espinha dorsal da corrupção e criar as bases do
verdadeiro federalismo, invertendo o fluxo dos recursos públicos e declarando
o município como o único arrecadador de impostos e centro da geração da
cidadania e da administração das coisas públicas. O município como único
arrecadador de tributos e pagador de um tributo federal e outro estadual,
para custear os respectivos orçamentos. Esta inversão feriria de morte a
corrupção endêmica que desvia uma parcela razoável dos orçamentos público e
criaria as bases para o domínio público da respública, sonho desde os tempos da Ágora de Atenas.
Faltaram autoritarismo e grandeza
política, também, para facilitar o surgimento de uma geração de líderes,
capaz de dirigir essa grande nação. Ao contrário, forjaram um bando de
eunucos que navegam pela bússola dos interesses daqueles que os financiam ou
que os garantem no poder. Faltam-nos líderes em todas as áreas. Este, um dos
maiores erros estratégicos dos militares.
Faltou autoritarismo político para
fazer uma profunda reforma na máquina estatal, para extirpar dela o vírus da
corrupção, para criar um Estado moderno, operado por agentes públicos
capacitados e preocupados unicamente com o bem público. Para demonstrar
“austeridade democrática”, cortamos na própria carne e deixamos correr solto
o resto, permitindo que se criassem e se enraizassem as distorções absurdas
em todos os níveis na administração pública que inviabilizam uma reforma
séria na máquina estatal. A tal “cota de sacrifício” que nos impusemos, nos
condenou a ser os primos pobres da República com a agravante de não podermos
reclamar, pois fomos nós mesmos os autores. Em vez de criar, logo no início,
uma política única de remuneração para os servidores públicos com um
escalonamento vertical único para todos os três poderes, autarquias e
estatais, executando as “cirurgias necessárias” nos direitos adquiridos,
permitiram que se consolidasse um absurdo desalinhamento que acabou sendo
sacramentado com a CF/1988.
Faltou autoritarismo e a visão de
estadista para fazer uma revolução na saúde pública e na educação de base,
sabidamente áreas básicas para qualquer projeto de nação e cuja implementação
exige muita energia e determinação. Perdemos tempo com MOBRAL e batendo boca
com estudante universitário enquanto devíamos ter focado nosso esforço para
interromper o processo de geração de miséria.
Passados cinquenta anos reconhecemos
que cicatrizes ficaram, mas também reconhecemos que sem 64 o Brasil seria,
hoje, mais do que uma grande Cuba, seria uma União Soviética porque
contagiaria toda a América Latina. Basta ver os amores daqueles que foram por
nós contidos em 64 e que hoje nos governam.
O que aconteceu no regime militar foi
uma guerra suja que, se descontextualizada, nada mais é do que uma sucessão
de atrocidades, como toda guerra. Omissões -e mesmo fraquezas- dos chefes militares permitiram
que aqueles duros tempos fossem reduzidos a um golpe de militares insuflados
pelos Estados Unidos para reprimir inocentes patriotas que só queriam
implantar no Brasil uma democracia quando a realidade é bem outra, pois
tratava-se de gente treinada e suportada pela União Soviética e seus
satélites -que cometeram os mesmos ou até mais desatinos que agora acusam os
militares- com um objetivo bem claro: transformar o Brasil em uma grande
Cuba.
Esta a visão retrospectiva de um
tenente de 64 que sonhou, se frustrou, mas que nunca perdeu a esperança de ver
a nação pacificada para que juntos construamos um Brasil melhor.
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sexta-feira, 28 de março de 2014
Sonhos e frustrações de um tenente de 64 (Onde foi que erramos?)
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